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Ar de Rock e pinguins.

por Nhex, Segunda-feira, 19.05.14

 Lembram-se do Salazar? Certamente já ouviram falar sobre esse sujeito. Ora, durante o Estado Novo o Povo Português vivia numa gigantesca repressão cultural. Como tal, apenas anos mais tarde foi possível o aparecimento das nossas bandas de Rock n' Roll. Ou, terá sido mesmo assim?

 Hoje, conto-vos a inacreditável história da primeira banda de Rock Português. O Alfredo, o nosso duende residente, encontrou no outro dia, ali na praia do Carreiro do Mosteiro, um diário muito estranho e decidiu estudar o seu conteúdo. Como resultado, chega-nos a saga de três homens e um pinguim albino, que, foram os pioneiros da música contemporânea em Portugal.

 Tudo começou em 1962, quando um dinamarquês de nome H. C. Andersen naufragou ao largo do nosso místico arquipélago. Resgatado por dois pescadores, prontamente foi questionado sobre as suas intenções. Estes homens pertenciam à PIDE, também conhecida por: Pescadores Internacionais de Esposende. Na verdade, só queriam saber o que andava este tolinho a fazer por ali naufragado. Continuando... Andersen viu num atlas a bandeira do nosso país. Quando reparou, que, o nosso vermelho tinha um tom mais agradável que o vermelho dinamarquês, decidiu trocar de país. Ou pelo menos, é o que diz no diário. Ora temos dois pescadores portugueses e um naufrago dinamarquês. Toda a gente sabe que essa é a receita para o sucesso.

 Recebido no abrigo que os pescadores tinham na ilha, Andersen começou por conhecer os homens que o acolheram. Mais tarde é que decidiu que se calhar devia também aprender a falar a nossa língua. Luciano Parvalheira e André Aboxéliu eram dois jovens pescadores que passavam noites a beber vinho tinto do bom, a tocar guitarra e a cantar. Andersen não ficou indiferente, ele sabia tocar o exótico instrumento que era a bateria. Talento puro, foi o que ele pensou. Eis que num desses serões, o dinamarquês pronuncia as suas primeiras palavras em português: "Ê pá, se calhar formávamos uma banda, não?" - Entusiasmados com a ideia, os portugueses, aceitaram logo a proposta. Andersen sugere um estilo pouco habitual por estas bandas, o Rock n' Roll. Viajado que era pelo mundo, eram os sons de Chuck Berry e os seus amigos americanos que o faziam tremer. Sem saber como ensinar este estilo aos pescadores, decidiu tentar a sorte com o típico, "é tipo Amália, só que não é". Com dois dedos de guitarra sai um verso sobre conduzir um Marlei (o equivalente ao Cadillac português na altura). Era mesmo aquilo que Andersen queria.

 Faltava apenas a bateria, que por coincidência veio com Andersen no seu iate. O problema, era que a bateria estava precisamente no fundo do mar. É aqui que entra o principal parceiro do trio. Manuel Augusto, um pinguim albino perito no resgate marítimo. Prontamente, este grupo improvável contactou a criatura. Augusto decidiu que ajudava os três homens, com uma condição. Teria que ser o manager da banda. Como toda a gente sabe que o pinguim é provavelmente o animal que mais percebe de negócios, os três companheiros aceitaram  de imediato. Duas semanas, um guindaste e uma bóia em forma de pato Donald, foi o custo para retirar o instrumento das profundezas do oceano. Na verdade eram apenas dois metros de profundidade. Havia era muitas algas. 

 Em dois meses, o grupo tinha dez canções. Guiados pelo Jazz, Blues e o Trítono, os êxitos estavam garantidos. Havia apenas um problema. O país vivia assolado pela ditadura e os ranchos folclóricos, para não falar da Igreja Católica que era pouco amiga dos sons do rock. Para começar era preciso dar um nome à banda, após alguma discussão foi escolhido: "Nós mais o gajo norueguês", isto porque o bacalhau da Dinamarca não é tão bom. De seguida foi necessário escolher cuidadosamente os locais onde divulgar a música. Foram contactados dois padres corruptos, que alugavam o centro paroquial a qualquer um, além disso, dois sacristães comunistas (se é que alguma vez se viu ironia) conseguiam o mesmo negócio. Estava garantida uma digressão, pelas seguintes terras, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Lamego, Viseu e Alfafar. Como meio de divulgação, foi usada a rede de jornais clandestinos da oposição ao regime.

 A última entrada no diário foi feita, ao que parece, antes do concerto em Alfafar. Andersen escreve sobre a sua desconfiança sobre o senhor do café. Ao que parece não ficou convencido pelo seu bigode e suspeitava que era um "chibo" da PIDE. Não confundir com a associação de pescadores. Toda a gente sabe que a policia do Estado teve que mudar o nome para DGS (Direcção-Geral de Segurança) porque a associação piscatória era muito mais querida pelo povo. Sendo assim, podemos talvez presumir que o destino desta banda tenha sido ditado pelas politicas culturais impostas na altura. De qualquer forma, temos que agradecer ao duende Alfredo por ter recuperado uma página (ou várias) da História Portuguesa.

 

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por Nhex às 01:27